Cerveja se bebe em qualquer lugar. Experiência, não.

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Como a arquitetura transformou uma cervejaria em ponto de encontro, palco cultural e destino gastronômico

As pessoas não saem de casa apenas para beber uma cerveja. Elas saem para viver algo.

É aqui que a arquitetura comercial deixa de ser cenário e vira ferramenta: o meio pelo qual a marca se torna palpável, memorável e experienciável.

O projeto que ilustra esse texto é a Fumaçônica, uma cervejaria curitibana que se transformou em brewhouse, laboratório, palco cultural e ponto comercial ao mesmo tempo. Mais do que uma reforma, é um exemplo de como espaço, marca e operação podem caminhar juntos.

Tudo começa na essência, antes de falar de planta e layout

Antes de escolher revestimento, luminária ou posição do bar, uma pergunta precisa ser respondida com clareza:

“O que essa marca faz as pessoas sentirem?”

No caso da Fumaçônica, a resposta não tinha nada a ver com IBU, lúpulo ou estilo de cerveja. Tinha a ver com:

  • Irmandada: Amigos de mais de 20 anos que se reúnem semanalmente
  • Cultura: Música, cena local, artistas independentes, grafite, skate
  • Mão na massa: Os próprios sócios construindo e montando coisas
  • Vida leve: Sair do peso da semana, quebrar o gelo, relaxar
  • Território: Curitiba, clima, sotaque, ingredientes locais

A partir desse entendimento, as perguntas de projeto mudam de forma:

Como traduzir irmandade em espaço? Como fazer a cultura aparecer nas paredes, no mobiliário, na luz? Como fazer o cliente sentir a verdade da marca só de atravessar a porta?

Sem esse mergulho na essência, o risco é cair no óbvio: mais um bar “industrial” com tijolinho, tubo aparente e lâmpada de filamento em um cenário genérico que poderia pertencer a qualquer marca.

Com esse mergulho, o espaço passa a ser continuação da história, não apenas decoração.

Do rótulo ao espaço: quando a identidade visual ganha volume

Uma marca forte geralmente já carrega um universo: logotipo, paleta de cores, rótulos bem pensados, um “clima” visual. O trabalho da arquitetura é puxar esse universo para a terceira dimensão.

No brewhouse, isso aconteceu em camadas.

A paleta da marca trazia tons terrosos e grafismos urbanos. Na arquitetura, isso virou concreto aparente em contraste com madeira de demolição e murais de artistas locais ocupando paredes que, em outro projeto, seriam apenas pintadas de preto.

A mistura de industrial com tropicalidade orientou a escolha de materiais: aço e metal convivendo com plantas, iluminação quente e texturas orgânicas. O espaço respira o mesmo clima dos rótulos.

A logomarca não ficou restrita à fachada. Ela ganhou escala cenográfica na parede atrás do DJ, criando um ponto focal que aparece em toda foto tirada no salão publicidade orgânica a cada story postado.

Quando o cliente entra e sente que o ambiente tem o mesmo “sabor” do rótulo que ele já conhece, acontece algo importante: confiança. O espaço parece coerente com aquilo que a marca promete.

Layout como jornada: do impacto da rua ao momento do brinde

Arquitetura comercial não é só definir onde as coisas ficam. É desenhar como as pessoas caminham, descobrem, permanecem.

No caso de uma cervejaria que também é bar e ponto comercial, o layout precisa responder a muitas demandas simultâneas: atender o fluxo do balcão, permitir a operação da cozinha, dar visibilidade à produção, organizar circulações e criar áreas de permanência diferentes.

A estratégia foi pensar o espaço como uma jornada em camadas.

Fachada que desperta curiosidade. A fachada entrega o básico: presença da marca, certa transparência, luz convidativa. Mas não revela tudo. A mensagem é: “tem algo acontecendo aqui dentro”.

Entrada que abraça. A porta original do bar anterior foi mantido  um gesto de memória. Ao atravessá-la, o visitante entra num salão amplo, com pé-direito generoso e visão de diferentes pontos de interesse.

Cantos e cenas. Em vez de um espaço totalmente aberto e “chapado”, o layout cria zonas: áreas mais agitadas próximas ao bar e ao DJ; cantos mais íntimos que lembram sala de estar; lugares de observação da fábrica; percursos que incentivam a descoberta.

Produção à vista. A fábrica é protagonista. A ideia é que a pessoa beba olhando para o tanque, entenda que aquilo é real, vivo, acontecendo ali.

Esse desenho de jornada faz com que o espaço conte uma história sem ninguém precisar explicar nada. O cliente sente.

A integração que transforma espaço em experiência

Uma decisão estruturante do projeto foi não esconder nada.

A cozinha é aberta. Quem está no salão vê a equipe trabalhando, reforçando transparência e cuidado.

O DJ toca de costas para a cervejaria, com os tanques ao fundo. Isso cria uma imagem quase cinematográfica e comunica que música e cerveja são parte da mesma experiência.

A produção acontece com o bar funcionando. Não é um laboratório distante. É ali, na frente de todo mundo.

Para o cliente, isso significa uma experiência mais verdadeira, a sensação de bastidor aberto, uma percepção maior de valor naquilo que está consumindo.

Para a marca, significa reforço de posicionamento, diferenciação em relação a bares genéricos e uma história poderosa para contar em toda comunicação.

O espaço como palco para produto, gastronomia e território

Uma cervejaria que pensa nessa experiência não vende só “cerveja e porção”. Ela vende território, gastronomia autoral e experimentação.

No brewhouse, algumas escolhas caminham nessa direção:

Um “laboratório” gastronômico onde pratos típicos como a carne de onça, podem ser reinterpretados e harmonizados com cervejas produzidas no local.

A possibilidade de usar ingredientes regionais (frutas específicas do Paraná, por exemplo) em receitas de cerveja, reforçando o vínculo com o lugar.

A preparação do espaço para eventos, lançamentos, festivais e ativações culturais onde o ambiente já nasce pronto para receber programação.

Quando o espaço conversa com o produto, com o cardápio e com o território, o cliente para de ver aquilo como “só mais um bar” e passa a enxergar como um destino.

Um espaço que nunca está pronto

Uma visão que guiou o projeto:

“O espaço nunca termina. Ele evolui.”

Isso significa deixar margens para intervenções futuras (como a área externa, o Garden, que pode ganhar vida em outra fase). Significa criar pontos onde novas artes, mobiliários ou elementos podem ser inseridos ao longo do tempo. Significa aceitar que o espaço responde ao uso — e que ajustes fazem parte.

Essa postura gera efeitos diretos na experiência do cliente:

Ele tem motivo para voltar (“o que será que mudou?”). Ele se sente parte da construção (“acompanho esse lugar desde o começo”). Ele se vê representado na história.

O espaço deixa de ser um objeto congelado no tempo e se torna um processo em contínua construção — assim como a própria marca.

O papel estratégico da arquitetura comercial

Quando bem planejado, o espaço físico de uma marca:

  • Traduz posicionamento — não precisa explicar: o ambiente mostra
  • Aumenta tempo de permanência — as pessoas querem ficar
  • Estimula recorrência — elas voltam para ver novidades
  • Gera conteúdo orgânico — fotografam, postam, marcam
  • Apoia a operação — fluxos inteligentes, cozinha integrada, bar eficiente
  • Criar diferencial competitivo — algo que não pode ser copiado com facilidade

No caso da Fumaçônica, a transformação fez com que a marca deixasse de ser só um rótulo para se tornar ponto de encontro oficial de uma comunidade. Reforçou sua presença na cena cultural e gastronômica de Curitiba. E deu à cervejaria um ambiente à altura da autenticidade que já existia “do portão pra dentro”.

Marca forte merece espaço à altura

Transformar a experiência de uma marca em espaço físico não é sobre encher o ambiente de elementos “temáticos”. É sobre:

  • Entender a verdade da marca
  • Escolher uma narrativa
  • Desenhar uma jornada
  • Integrar operação, atendimento, produção, cultura e gastronomia
  • Usar a arquitetura como estratégia, não como acabamento final

Quando isso é feito com profundidade, o resultado é simples de perceber: as pessoas entram, sorriem, permanecem e saem com a sensação de que viveram algo — não apenas consumiram um produto.

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