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O Futuro do Varejo é um Projeto de Arquitetura
A NRF 2026 pode ser a maior feira de varejo do mundo, mas ao caminhar por seus corredores, a grande revelação não está nos produtos, mas nos espaços que tecem a conexão entre pessoas e marcas. As conversas em Nova York não foram sobre como vender mais coisas, mas sobre como criar mais significado. Para nós, da A9 Arquitetura, e para qualquer arquiteto que queira ser relevante, a conclusão é clara: o futuro do varejo não é apenas um desafio de negócios, é um projeto de arquitetura. Deixamos de ser meros prestadores de serviço para nos tornarmos protagonistas na definição da existência física e da relevância comunitária de uma marca.Este artigo sintetiza as três lições mais contraintuitivas e impactantes do evento. São insights que redefinem nosso papel, transformando-nos de projetistas de edifícios em curadores centrais da experiência humana no comércio.
1. A Reviravolta do Espaço Físico: Da Venda por Metro Quadrado à Interação Significativa
A lição contraintuitiva da NRF 2026 não é que o varejo físico sobreviveu, mas que sua métrica fundamental mudou. O antigo evangelho da “venda por metro quadrado” foi substituído por um novo indicador: “interações significativas por metro quadrado”. Dados de 2025 já apontavam para um crescimento no tráfego dos shoppings, mas o que vemos agora é uma transformação qualitativa: a loja não é mais um ponto de distribuição de produtos, mas um epicentro de comunidade.O caso mais emblemático é o conceito “House of Sport” da DICK’S Sporting Goods. Ed Stack, Presidente Executivo, descreveu um projeto que nasceu de uma premissa radical: reinventar o próprio negócio. Ele ignorou a pressão por formatos menores e criou destinos de 150.000 pés quadrados que colocam a comunidade e a experiência em primeiro lugar.”Precisamos construir um conceito que vai matar a DICK’s Sporting Goods.”Como arquitetos, somos agora os curadores desta nova ágora. Nosso desafio é projetar para o “tempo de permanência” e a emoção, e não apenas para a eficiência transacional. Isso se traduz em decisões concretas de projeto:
- Programação Flexível: Devemos criar layouts com alta modularidade, capazes de acomodar desde pop-ups e workshops até eventos comunitários, transformando o espaço em um palco dinâmico.
- Zonas Acústicas e Sensoriais: É preciso esculpir o ambiente para diferentes necessidades — zonas acusticamente isoladas para conversas e encontros ao lado de áreas de exploração silenciosa.
- Materialidade Tátil: A especificação de materiais que convidam ao toque — madeira natural, tecidos texturizados, metais brutos — funciona como um poderoso “antídoto ao tempo de tela”, promovendo uma conexão física e sensorial que o digital não pode oferecer.
2. O Paradoxo da IA: A Tecnologia Que Nos Torna Mais Humanos
A conversa sobre Inteligência Artificial finalmente amadureceu. A questão na NRF 2026 não era “se”, mas “como” a IA pode ser usada para gerar resultados de forma pragmática. A lição mais paradoxal é que, longe de desumanizar o varejo, a IA está liberando o potencial humano ao automatizar o repetitivo e o tedioso, permitindo que as pessoas se concentrem no que fazem de melhor: conectar-se com outras pessoas.Tecnologias como os robôs Tally da Simbe, que escaneiam prateleiras com precisão incansável, não substituem pessoas; eles as capacitam. A equipe, livre de tarefas meticulosas, pode se dedicar ao atendimento consultivo. A filosofia da Taco Bell reforça essa visão, tratando a tecnologia como uma ferramenta de evolução, não de transformação disruptiva, um suporte para facilitar o trabalho das equipes e aprimorar a experiência dos fãs.”Para o Taco Bell, acredito que é realmente mais uma evolução… não uma jornada de sete anos de transformação.”Para a arquitetura, nossa missão é curar a interface entre o humano e a tecnologia, projetando palcos onde a interação humana é a protagonista e a tecnologia, uma camada invisível de suporte. Isso redefine o mobiliário e os espaços de serviço:
- De Balcões a Mesas de Workshop: Os balcões de atendimento, barreiras transacionais por natureza, dão lugar a mesas de workshop colaborativas, onde consultores e clientes podem interagir lado a lado, cocriando soluções.
- Back of House como Centro de Comando: As áreas de bastidores (BOH) deixam de ser meros depósitos para se transformarem em “centrais de comando” para a equipe. Espaços bem projetados, equipados com tecnologia para gestão e comunicação, capacitam os funcionários e os colocam no controle da experiência do cliente.
3. O Novo Pilar do Design: O Edifício Como Manifesto da Marca
Bem-estar e sustentabilidade não são mais diferenciais; são o alicerce. A lição contraintuitiva, no entanto, vai além: o espaço físico não pode ser apenas um contêiner para produtos sustentáveis, ele deve ser a manifestação tangível da economia circular e dos valores da marca. O próprio edifício se torna a mensagem.Essa mudança é visível em estratégias como a da Giant Food, que usa alimentos frescos como pilar de sua proposta de valor, e na ascensão de startups como a SuperCircle, que transforma o desperdício têxtil de um centro de custo em um gerador de receita. A responsabilidade pelo ciclo de vida do produto é agora um imperativo de negócio.Como arquitetos, somos os curadores dos valores da marca, traduzindo o intangível em espaço construído. Isso implica em:
- Design para o Bem-Estar Sistêmico: Ir além da iluminação natural e do design biofílico. Envolve especificar sistemas de HVAC e de filtragem de ar que se tornam parte da narrativa de saúde da marca, comunicando cuidado e bem-estar.
- Infraestrutura para a Circularidade: Integrar a economia circular na própria arquitetura. Isso significa projetar pontos de devolução que sejam belos e convidativos, não utilitários; criar estações de reparo que se tornam parte da experiência do cliente; e especificar materiais que não apenas são sustentáveis, mas que contam uma história de reutilização e responsabilidade.
O Arquiteto Como Protagonista da Experiência
As lições da NRF 2026 convergem para uma única verdade: o varejo está se tornando menos sobre transações e mais sobre relacionamentos. A loja física se transforma em um destino que cura comunidades; a tecnologia é implantada para curar a interface humana; e o design do espaço se torna o curador dos valores de uma marca. À medida que a fronteira entre comércio, comunidade e conteúdo se dissolve, nossa missão como arquitetos na A9 Arquitetura não é mais apenas projetar edifícios, mas sim coreografar experiências. Nosso papel evoluiu de fornecedor para protagonista. A questão que fica é: estamos prontos para assumir o papel de curadores do futuro do varejo?





